Friday, July 08, 2005

Revisão.

Eu-lírico que nada! Eu-lírio.

Saturday, June 25, 2005

Homo Sapiens Sapiens

Sentiu vertigem, náusea, e precisou segurar-se firme à parede chapiscada. Suando frio, o avô virou o rosto ao vê-lo, soltando pipa: pressentia a fragilidade da vida, presa por um fio, cruzando o céu.

Monday, June 20, 2005

Identidades

Porque somos dois meu amor, sempre dois. Não existe essa coisa de fusão, de ser “um só corpo e um só espírito”. Que tedioso seria se assim fosse, imagine só. Somos dois meu bem, sempre dois. E é por isso que discordamos tanto e temos discussões que não nos levam ou levarão a qualquer lugar algum dia. É por isso que você me magoa e eu finjo que nada está acontecendo – já que sou metida a forte – e o pior é que você sabe muito bem disso e deve rir às minhas costas com seus amiguinhos que não são definitivamente os meus .
É porque somos mais de um que você reclama da falta de espaço, da bagunça no banheiro, dos meus horários loucos, de como te ligo demais, de como te ligo de menos, de como nunca te ligo quando você tá carente e parece que você sempre tá carente e eu não entendo quando você diz que eu tô te sufocando, sei lá, acho você tão inconstante e também acho isso porque somos dois, querido, sempre dois. Isso pra não mencionar os demais que ficaram de fora do que acabamos nos tornando e que ainda são parte importante do nosso mundinho que as vezes, e só as vezes, parece tão pequeno pra tanta gente.
Você sabe da grande besteira que é pensar que essa história de Alma Gêmea, Cara-Metade, Outra-Parte existe. Os únicos que acreditam nisso são os produtores de grupos de pagode, leitores de Paulo Coelho e fãs do Fábio Jr. Não há esse encaixe, essa perfeição, essa completude.
Pense na teoria das probabilidades. Poderíamos ser tão ou mais felizes com milhares de outras pessoas. Porque não foi por uma conjunção astral no dia dos nossos nascimentos, uma predestinação, uma conspiração favorável do universo que nos encontramos. Foi pelo simples e absurdo Caos, se você realmente precisa nomear as coisas. Somos dois, meu bem, como somos muitos. Como nunca seremos um só e isso é que é o genial e não essas teoriazinhas holísticas e esse romantismo de divisão binária de alma.
Sabe de uma coisa? Somos quase um nós.

Sobre caquis

É tempo de ver os caquis sobrecarregando aquele velho pé já doente no fundo do quintal. É um pouco estranho porque aparecem de repente, vermelhos, sadios e expostos, lutando contra a gravidade da terra preta tão boa de plantar segundo meu avô (que trabalhou a vida inteira em ferrovias mas diz entender do assunto, e se ele diz eu acredito, fazer o quê).
Não é exatamente um espetáculo bonito ou prazeiroso. Pra falar a verdade é como uma cena grotesca da qual não conseguimos desgrudar o olho. Dá pena e ainda sim aquela curiosidade meio mórbida. Tudo porque os galhos cansados da árvore que anos atrás serviam de refúgio para as minhas brincadeiras e pequenas crises de 20 minutos quase pedem clemência àqueles frutos tão enjoativamente doces. É maldoso ver tantos caquis risonhos e gorduchos nascendo e sugando uma senhora tão curvada. Mais que isso, é obsceno.
Todos os dias temos que recolher vários deles porque, além de atraírem animais indesejados, ninguém agüenta o cheiro daquilo tudo em decomposição. Aliás, eu não tenho certeza se é realmente o cheiro que nos desagrada ou a consciência de que tudo está se desfazendo, e não me refiro só aos caquis mas também aos corpos, lares, amizades e relacionamentos duradouros. A ilusão de eternidade talvez seja imprescindível.

Não temos como estocá-los. Por isso fazemos distribuições aos vizinhos e parentes, e ainda sobram nas cestas vários que não conseguimos aproveitar. São quase uma peste que o fim do verão traz para a casa. Temos que comê-los em quase todas as sobremesas, ao natural ou em compotas, doce que eu sempre achei de péssimo gosto (e por favor coloque aí no seu entendimento a ambigüidade dessa sentença).
Mas ninguém ousa cortar o pé e exterminar o ritual familiar de todo ano. Porque, no fundo, somos de bom grado servos dóceis de uma árvore velha e seus frutos lascivos. É que talvez esse seja o único vínculo com um passado nem tão distante, mas que já está sendo esquecido. Talvez os caquis e sua capacidade de melar as mãos e a alma sejam também a cola que nos gruda ao que éramos, a última estrofe de uma cançãozinha inocente que ninguém mais tem voz ou tempo pra cantar.
Porque sabemos (embora ninguém comente durante o jantar) que daqui pra frente mais e mais caquis vão ficar pelo chão e não serão distribuídos para os vizinhos e parentes mais próximos. Será sempre essa decomposição, esse fim das coisas, esse desprendimento que faz a pobre frutinha despencar e espatifar-se num jorro doce.
Mas não quero continuar pensando nisso agora. É tempo de ver os caquis. De colhê-los. De reclamar do trabalho e do fastio. De comê-los. E de desejar ainda vê-los no ano seguinte, todos nós, apesar de tudo.

Ó nóis aqui travêiz... (Uma breve introdução de mais um blog breve)

Voltei a escrever porque estou triste e só escrevo quando fico triste. (“Tá deprimida? Abre um blog!”, né André?) Mentira. Não estou triste não. Tampouco estou entediada, sozinha, ansiosa, agoniada, nostálgica ou mesmo depressiva. É só porque eu quero. E não precisa haver motivação maior do que essa. Blog novo apenas porque cansei do velho, dos textos e principalmente do título. Tô de saco cheio de procurar coisas belas, se querem saber. Que elas venham até mim, se assim desejarem (porque ando pretensiosa e esnobe mesmo, hmpf!) E se não vierem, tem importância não, eu fico na companhia do exagero, do feio, do grotesco, do que também sou eu, embora custe a admitir. O Juão é que tá certo, adotei (leiam: roubei, des-ca-ra-da-mente!) o epíteto “a dirty minded girl with a gentle spirit”. (desculpa?)
Chega dessa introdução tosca. Beijo nos meus queridos 9 ou 10 desocupados (!) que passam vezinquando aqui pra me ler, gastando tempo e internet, embora eu não me iluda: todo mundo tem banda larga e não daria um puto pra entrar aqui. Mesmo assim, de coração, obrigada pela preferência e volte sempre. E vâmo lá senão eu fico com preguiça e desisto.